sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A Fulana




Os colegas de trabalho me pediram. Não havia como trabalhar com ela. Criava cizânia, vivia reclamando, organizava intrigas. Mas ela era uma boa profissional. Os colegas me deram um ultimato: era ela ou eles. Resolvi chamá-la na minha sala e iniciei a conversa: fulana, você é nova, você está estagiando, tem todo um futuro pela frente, mas está havendo problemas por aqui e você sabe disso. E fica complicado para mim trabalhar com um grupo desunido. Eu preciso de convergência. Infelizmente, fulana, não vai dar mais para a gente trabalhar junto.

Ela me olhou com os olhos bem arregalados e as lágrimas começaram a cair e se descambou a chorar. E chorava e chorava. Eu, desajeitado para esse tipo de incidente, não sabia o que fazer e o que dizer. E a fulana chorava: dizia, como vocês podem fazer isso comigo? Depois de uma pausa falei: fulana, assimila. Vou te dar mais uma semana aqui, mas assimila.

O tempo passou, a vida continuou. Semana passada encontrei a fulana. Ela disse que estava ótima, que estava trabalhando, que queria fazer concurso, que estava para casar com um Juiz, etc. Eu fiquei apenas ouvindo, escutando o que ela dizia com certa ansiedade. Nos despedimos e cheguei a boa conclusão de que ela assimilou.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Focos Obscuros de Uma Certa Memória




Descobri que existe noite. Que é possível dormir até mais tarde. O gosto do vício que também alucina. A comida que faz engordar. O líquido responsável pela embriaguez. O sabor do fumo que intoxica. A música que leva viajar.Descobri o lado do fascínio. Minha visão e sensibilidade, enfim, atingiram um outro ângulo. Não estava preocupado com o sentido da vida ou com a finitude de tudo, pois era muito jovem. As mulheres e suas saias me interessavam e passava a procurar seios na televisão bicolor tarde da noite, quando todos dormiam. E ficava horas esperando que aquilo acontecesse. E muitas vezes não acontecia. Frustrado, morrendo de sono, dormia. Sonhava como sendo o chefe glamoroso de uma família linda, de médicos ricos, donos de um grande hospital. Imaginava ela maravilhosa, linda, magra e inteligente, tinha até nome. Geramos filhos esbeltos e saudáveis. Todos formidáveis. Mas foi por pouco tempo, porque me desinteressei. Virei rebelde. Passei a contestar. Gostava de discutir. O cabelo cresceu, os tênis sujaram, as roupas ficaram estranhas. Andava de ônibus com a multidão de trabalhadores proletários, o que alimentou radicalmente o meu rol das pequenas descobertas. Comecei a ler entusiasmado os escritores malditos, aqueles que minha turma nunca lia. Anotava as palavras mais radicais. E vibrava com tudo aquilo. Usava nas conversas, debates e discussões. Virei um chato. Percorria as ruas populares e escuras no mais sagrado anonimato. Ninguém sabia, porque ninguém me via e eu não contava. Ninguém reconhecia, porque eu estava disfarçado. Era sempre tarde da noite.Depois dormia e sonhava. Não sei quanto tempo isso durou, porque não lembro mais de nada. Apenas pequenos fragmentos que eu ainda descubro em alguma prateleira que deixei aberta.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Mundo Sobre Mim




Fui um menino que tinha vergonha de pedir licença para ir ao banheiro. E me borrava nas calças e o cheiro invadia a sala de aula. Todos se olhavam e a peça acusatória corria contra mim. Ficava vermelho de pura vergonha e saia torto em direção a porta enquanto o pessoal ria. E a diretora chamava mamãe que estacionava seu volks na porta da escola e vinha com uniforme novo para eu vestir. Voltava para a sala acabrunhado, fechado em mim mesmo, contando as horas para o tempo passar e voltar para casa, para o coração do meu quarto, onde eu podia dominar o mundo.

O mundo era eu. Eu pensava que o mundo funcionava apenas ao meu redor. Todos faziam parte de uma grande encenação, onde eu era a figura principal. A realidade só existia na minha presença. Eram todos coadjuvantes da minha vida. Existiam os bons atores principais, aqueles que faziam parte da minha família. Existiam os coadjuvantes que eventualmente participavam da minha vida. Sempre quis encontrar os bastidores dessa grande encenação. Procurava nos cantos, nas portas, nas esquinas uma brecha, onde eu poderia descobrir essa falsa realidade. Queria passar para o outro lado, mas nunca conseguia.

Um dia me dei conta que a vida é muito mais complexa do que eu imaginava. Cada pessoa tinha sua própria vida e o mundo não mais me pertencia. Não havia teatro ao redor da minha pessoa, não haviam atores principais e nem mesmo coadjuvantes. Todos eram atores principais de suas próprias vidas. Juro que não fiquei decepcionado, mas aliviado. Os holofotes não estavam acesos apenas por minha causa. Eu poderia circular pelo escuro, sem que ninguém me visse. Eu tinha condições de ter alguma autonomia, sem que ninguém ficasse sabendo. Descobri, então, o lado escuro da vida.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Conselhos do Conselheiro




O Conselheiro Sentimental da Revista Caras continua no comando.

Margarida está deprimida e pergunta, o que posso fazer para sair da depressão? Respondo> Querida Margarida, procure levantar cedo e cheirar profundamente o calor da manhã. Busque nas cores das estações o ângulo mais certo. Seja gentil e amável com as pessoas ao teu redor mesmo que elas sejam cavalos ou trogloditas. Sorria porque é bom sorrir. Enfim, busque a felicidade a qualquer preço, mesmo que ele seja extorsivo.

Rapunzel Magoada brigou com seu príncipe, ele disse que encheu o saco, ela precisa de ajuda.
Respondo> Querida Rapunzel, seja como você sempre foi. Fique calma. Repire fundo. Pense antes de falar. Dê tempo ao tempo. Não faça besteira. Não ligue para o seu príncipe. Deixe ele sentir saudades. Não faça nada precipitado. Quem sabe um dia ele volta.

Louca entristecida perdeu a paciência com o marido. Ele não satisfaz suas vontades carnais, ela é fogosa e precisa de conselhos.
Respondo> Dear Louca, se a situação está complicada faça a suprema tentativa: compre uma lingerie vermelha e se debruce sobre ele. Veja o que ele faz. Se ele não der sinal de vida. Desista. Arranje outro.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Onde Está o Super Homem Que Existe Dentro de Nós?





Um bom administrador de vidas, e deus cego é exatamente isso, deve saber aceitar a vida como ela é. Isso pode ser muito fácil, pode ser muito simples, mas não é. Não é mole, é muito duro conseguir aceitar a vida como ela é. Muita gente não consegue fazer isso. E tem gente que acha que sabe fazer isso, mas não sabe. Não estou (please) a defender aqui uma certa índole conservadora. Não confunda aceitar a vida como ela é como as coisas são assim porque Deus quis ou o mundo é injusto, o que fazer? Não estou a defender, com essa minha tese piegas, a manutenção do status quo. Muito pelo contrário, aceitar a vida como ela é significa aceitar a própria existência, inclusive respeitar o ponto de vista das pessoas que estão ao nosso lado. E o ato de aceitar é o início, é o ponta pé inicial para qualquer tipo de mudança. Quem não aceita a vida como ela é está em permanente conflito consigo mesmo. Fica doente dos nervos por qualquer coisinha, respira estresse, colhe brigas e ressentimentos. O vivente que aceita a vida como ela é tem mais condições de mudar para melhor, porque uma forma de organizar melhor o pensamento ( e pensar bem faz bem) é saber aceitar a vida como ela é. Conheço alguns caras que estão chegando na meia idade, onde o sentimento de finitude começa a tomar conta da nossa existência, que simplesmente não aceitam a vida como ela é. E tentam ser o que não são. Formam personagens anacrônicos e imaturos e fazem de sua vida uma grande e irresponsável bagunça. E o momento certo ( ou limite) de aceitar a vida como ela é (sorry por repetir tanto essa frase) é exatamente esse, na meia idade. Administrar bem a vida, reconhecer nossos fracassos e virtudes, procurar corrigir a partir da nossa própria aceitação é a fórmula mágica e secreta de se obter sucesso, emocional, profissional, pessoal. Pronto, posso ser conselheiro sentimental da Revista Caras.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sobre o Cheiro da Comida do Restaurante do Chinês do Lado.


Aspiro fundo a procura de um cheiro. No meu bloco de notas os compromissos agendados. Coloco os óculos para enchergar de perto. Anoto o que efetivamente é preciso. Estou em fase de economizar movimentos. E o cheiro, finalmente, aparece. Cheiro de fritura. Imagino uma grande panela com óleo até quase em cima e dentro dele nacos de carne sendo espalhados por toda a superfície. Ou pequenos camarões mergulhando na frigideira corroida pela banha saltitante.


De manhã cedo quando chego ao trabalho avisto o senhor chinês voltando da feira. Ele anda encurvado e carrega sacos de carnes, verduras e hortaliças. Seu andar é apressadinho. Os óculos grandes, velhos, pretos e redondos tomam conta de sua face. Ele nunca me cumprimenta. Eu nunca cumprimento ele. A gente simplesmente se conhece.


Um dia, em janeiro, fui ao restaurante do chinês ao lado. Estava com fome e comi pratos e pratos de camarão frito e a noite -- ao me recostar -- fiquei esperando o ronco dolorido do estômago. Nada disso aconteceu, os camarões estavam bons. Nunca mais voltei ao restaurante do chinês do lado.


Talvez no próximo janeiro, quando os deuses da vida estiverem descansando na praia, eu retorne. Por enquanto, aspiro -- meio enojado -- o aroma rançoso da carne ou dos camarões fritando na velha panela recheada de óleo. Penso no verão mormacento da cidade grande. Por enquanto me encolho e procuro alguma leitura um pouco mais agradável. Melhor mesmo é fechar a janela e ligar o ar.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sobre Minha Vã Filosofia


Nasci poeta porque gosto de escrever. Escrevo bobagens e petições. Aprendi a escrever com os dedos. E o mais interessante, aprendi a pensar com os dedos. Eu não vivo sem os meus dedos. Eles são minha cabeça pensante. Eles são muito mais rápidos do que meu cérebro. E tem horas -- juro por deus - que o meu cérebro quer que eu faça uma coisa e meus dedos fazem outra. E eu me atrapalho.

Sobre Um Certo (E Descartável) Celular Perdido e Encontrado




Perdi, meses atrás, meu celular. Tinha um monte de música que captei na páscoa em Buenos Aires. Tangos eletrônicos do tipo dub mix lounge ma non troppo. Procurei o diabo do celular em tudo que é lugar e coloquei a culpa no guardador de carros de uma churrascaria na Protásio Alves que levou meu carro para a garagem do estabelecimento. Mas não fiz nada, porque era apenas um celular, um aparelho que a gente troca como se fosse...... Bem, hoje é tudo descartável, até as relações humanas são assim.

E ontem no calor da madrugada, já cansado dos compromissos do plantão da porta de cadeia, dos hábeas para soltar menores bêbados, esses pequenos delinquentes que assustam as pessoas de bem nas calçadas da cidade, estressado diante dos problemas da vida me postei diante da santa cama e visualizei o maldido do celular perdido. Perguntei para minha deusa sonolenta: amada, que celular é aquele? É o teu que estava perdido nas entranhas do sofá, vai deitar que está tarde. E lá me fui me aconchegar feliz da vida, porque, enfim, não perdi os tangos dub mix lounge ma non troppo da minha coleção.

Sobre o óbvio


Quando deus fica famoso todo mundo reza por ele. Quando deus prega maldição mais fieis ele cativa. Quando deus posa de ar esnobe e autoritário mais cordeirinhos assinam a carteirinha de adesão. Os seres humanos definitivamente não sabem viver.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobre o Amor de Maria Por José


Ela se chama Maria. Maria das Quintas ou Maria dos Carmos. Talvez, Maria de Fátima ou Maria do Rosário. Ou apenas Maria. Sim, apenas Maria. Maria é típica. É pequeninha, cabelos bem negros, olhar salteado e bunda grande. Maria de personalidade. Maria de ferro. Maria furiosa. Maria doente dos nervos. Quase ou semi apaixonada por José de Oliveira, assim ele se apresentava. Gajo que ela encontrou nos bares da freguesia. Com ele as coisas corriam diferente. Pelo menos, ele não queria apenas levá-la para a cama. Ela gostava, porque ele a convidava para dar umas voltas, mas não as mesmas voltas, outras voltas do tipo, olhar os prédios da redondeza e falar sobre a vida inesquecível de seus avós e suas aventuras de infância no Minho. Maria não estava apaixonada, porque nunca esteve, mas gostava, porque gostava, de ser levada e protegida pelo guarda-chuva de um homem bom com voz simples e mão molhada.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

living la vida loca




Quando entra no quarto um pequeno arremedo de luz, acordo. Gosto de fumo seco. Olhar largo da minha fabulosa expressão. O silêncio da cidade do outro continente. Ilustre herança dos nobres sentidos. Pergunto, porque gosto de perguntar. Ouço respostas e anoto todas no diário caduco da minha cabeça. O que posso fazer se me esqueço?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Estamos Todos Bem




A má notícia circula pelos telefones. O fulano que jogava futebol com a gente está doente, muito doente. Ele tem apenas 50 anos. Não é fofoca, comentam, é verdade pura. Nossa vida caduca parece que está chegando. E a televisão não vai ser mais em cores, o mundo tridimensional veio para ficar e nele não existe mais espaço para nós que cantávamos canções felizes, porque éramos jovens. Hoje só resta disfarçar o riso. Enfrentar a luta imparcial. Sair para a rua e, talvez, descascar. Espichar o corpo para aparentar que está em forma, esconder as marcas malditas do tempo.

Até que na madrugada, no quarto úmido, em cima de uma cama manca, o homem beija o pé da moça rebelde. Chapada ela nem olha com respeito. Isso irrita e a vingança é um tapa de luva. Desajeitado decide agir delicado. Sutilmente - e ser sutil é obra da idade - pega na mão da bela guria gostosa e esboça um sorriso de cínica ingenuidade. Ela não titubeia e vomita deboche. Ri até ter um troço. O homem ofendido pensa em fazer besteira, mas é contido pelos necessários limites que aprendeu no berço da velha infância distante. Resolve disfarçar em paz. Afinal, estamos todos bem.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ilustre Tolerância




Tomava chopp com os amigos quando o celular tocou. A empregada varreu o escritório e o wireless caiu. Estão todos sem internet. Ninguém sabe o que fazer. Que se virem, ele pensou. Mas não seria justo dizer algo tão agressivo. Então, com voz morna e suave, disse: estou indo para casa agora.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Descura




Hoje de manhã quando estava na ducha pensei em um texto para postar aqui. Todo ensaboado, da cabeça aos pés, fiquei matutando sobre os termos da postagem. Ruminei inclusive a grande imagem que iria chamar atenção dos agentes desavisados. Os meus parcos e insistentes leitores inglórios. Estava tudo perfeito, límpido e claro na minha cabeça bolorada de shampoo. Mas o tempo passa e a gente se engana.



Do que estou falando mesmo? Não, não quero participar das banalidades do mundo. Detesto quando o mundo todo fica em silêncio ouvindo um contador de piadas. Tenho pretensões maiores. Minha arrogância firme não permite que eu me rebaixe para o mundo do populacho.

Minha deusa disse um dia que gostava dos Filhos de Francisco. Aquilo me deixou tão nervoso. Confesso, fui crítico e áspero. Ela não gostou. Fiquei com remorso e vesti a camiseta de bendito. Sou tecnológico e baixei para dar de presente a música em mp3. Meu esnobismo peculiar impediu que eu entregasse a ela o maldito arquivo que se encontra hoje perdido nos labirintos de meu armazém digital. Nunca mais tocamos no assunto.



Estava mesmo tomando um banho de ducha, já atrasado para o compromisso que tinha às 9. Pensei em postar algo aqui -- era disso mesmo que estava falando -- mas meus entorpecidos neurônios conseguiram complicar e nebulizar os significados das minhas mensagens. O que posso, então, fazer?



Tomo linhaça, quando minha deusa me dá. Engulo - três vezes por semana -- remédio para baixar o colesterol. Faço ginástica, corro um monte, jogo tênis, fico suado até encharcar a alma. Mas me esqueço. Sou esquecido, ora bolas.

Eu vi


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